domingo, 20 de setembro de 2009

mulheres, santas e desertoras - uma cena.

ela, por exemplo, era uma pessoa com um amor próprio exagerado.
nunca soube o que fazer com ele mas mantinha-o ali, bem perto.
medo, talvez.
não.
um cagaço federal!
e uma raiva sem tamanho, principalmente de si mesma.
foi o que ela me disse num desses dias que não se prende nada, que não se pensa nada.
por ali se cospe.
cheia de demônios, aquela menina.

o primeiro passo foi a perda da inocência. ainda não se sabe quando nem porque nem quem foi o responsável. só o que se sabia é que não tinha volta.
mas o que há de ruim nisso? quando ocorre a bofetada, logo depois vem a queimação do desespero e, sem dúvida, é ali que acontecem os prazeres mais intensos.

ela gostou da brincadeira.
um carinho, um beliscão.
um beijo, um empurrão.
um abraço, um soco.
um cafuné, uma escarrada.

a cada dia ela ia se afastando mais do naturalismo.
criava amizades em meio aos insultos. [era bonito de ver.]
e os amores... ela costumava agarrar os corações pela unha.
o fato é que amizade e amor eram conceitos que não existiam há muito tempo.
ela fazia papel de espelho.
o único no mundo.

até que encontrou uma companhia especial, uma velha que conheceu no metrô.
ela costumava falar que velhos eram mortos que continuaram andando.
mas aquela velha era diferente.
ela se esqueceu do nome porque era realmente difícil de decorar. você sabe, nome de velho.
mas o que a velha lhe escrevia, ela não conseguia esquecer. algumas palavras até lhe faziam mal e, ainda assim, ela não esquecia.
deitava a cabeça no travesseiro e chorava de raiva de ser quem era.
ela descobriu que queria ser aquela velha. escrever genialidades e morrer daqui uma ou duas semanas, no máximo.
era isso o que queria.

numa carta, a velha disse que a menina só tinha dois caminhos.
- você nunca poderá se integrar à babaquice reinante e nem desertar.
a você, só restam o suicídio ou a santidade.

a menina relutou por um tempo, mas sentiu que não haveria catarse.
não haveria redenção.

[vivi a minha vida inteira acreditando que deus tinha guardado algo de especial pra mim.
mas era mentira.
e das feias.]

por aí vai...

C. L.
F. D.
M. P.
M. B.

domingo, 13 de setembro de 2009

gigante

eu menti. me chamo amélia. mas poderiam me chamar angélica, ou maria, ou joaquina, ou antônia, ou até mesmo zoraide, o nome não importa. e se josé fosse o nome escolhido, será que ainda assim não importaria? de que adianta pensar nisso agora? já me peguei com essa pergunta atravessada inúmeras vezes, mas a resposta tem sido sempre a mesma (para saber como seria se me chamasse maria, só me chamando maria) e isso me irrita. não me servem de nada as divagações porque vivo presa num fato que é irrefutável: amélia. quando me chamam de amélia, meu corpo responde automaticamente, identifica o som que é ligado pelo meu cérebro instantaneamente à imagem: eu. o fato de me chamarem amélia me define. a idéia do definitivo me assusta. responder por amélia significa agir como tal.

hoje ela chorou por colo.
ela só queria encostar.

era amor grande demais
imenso
gigante
amor grande daquele
só podia caber dentro dela
e só ela aguentaria a dor
de ver grande amor daquele
gigante
imenso
virando pó.

ela continua pagando pra ver o invisível.

[meu médico me receitou champanhe gelado.
e gelo nas têmporas.]

ela gostaria de não ter se esquecido das cores e das coisas
ela não tinha pé, perdeu a mão e saiu meio sem nada.
saiu de casa procurando a solidão como quem procura alguém.
saiu cantando um trechinho de uma música sem melodia...
... um sucesso de um fracasso
um osso dando um passo
rumo ao amor
mais falso
do mundo. ...

tinha um sol inteiro pra ela.

como se puni quem não se arrepende? ela pensava.

- mesmo quando foge de casa, amélia volta pra arrumar a bagunça que deixou pra trás.


C. L.
A. C.
N. G.
H. H.
R. K.
um panfleto de rua.

terça-feira, 1 de setembro de 2009

clara's ojos

veja bem meu bem
por esses dias eu só tenho palavras não inventadas
recortadas e coladas
meias palavras
que às vezes uma palavra inteira pode machucar
mais do que eu queria que machucasse
eu deixo nas entrelinhas
eu deixo no silêncio
na ausência
nas reticências
eu deixo.

não tá vendo? não tá ouvindo?

[não. então sim. então vai. lá. mas não. volta. aqui. não. vai mesmo. ai. eu te amo.]

eu sou aquela mulherzinha que se viciou no neosoro
que ficou rouca e quis mais gelo
que tá crescendo o cabelo
eu tô voando por ai e cada vez mais alto e mais alto e mais alto
e quando você me ver só um pontinho lá em cima
é a hora de despencar
e nadar num corpo novo
mergulhar
afundar
assassinar
eu não posso negar que é do meu jeito que eu gosto.

queria te deixar um obrigada e um oi
assim mesmo, o final antes de um começo
assim como eu gostaria que fosse
porque na verdade eu não queria que tivesse sido
mas como foi
um oi
pra recomeçar
devagarzinho.

tô indo prai
bater na sua porta
e dormir no corredor
só pra te acordar com um beijo de manhã
da manhã de amanhã.

logo agora a gente sabe

que o sentido das coisas é não ter sentido

[outertodos] e eu que

e você que

quando chegamos naquele pontovértice
onde nada é mais como era e nada como era é mais

eu volto retorno come back go go ia went was

[indovindo]

para o espaço que só existe no confuso
do universo da cabeça avessa amante confusa desejante vivente.

eu prefiro aprender com o que não está claro.
le sun.

C. L.
A. C.
F. F.