ela, por exemplo, era uma pessoa com um amor próprio exagerado.nunca soube o que fazer com ele mas mantinha-o ali, bem perto.
medo, talvez.
não.
um cagaço federal!
e uma raiva sem tamanho, principalmente de si mesma.
foi o que ela me disse num desses dias que não se prende nada, que não se pensa nada.
por ali se cospe.
cheia de demônios, aquela menina.
o primeiro passo foi a perda da inocência. ainda não se sabe quando nem porque nem quem foi o responsável. só o que se sabia é que não tinha volta.
mas o que há de ruim nisso? quando ocorre a bofetada, logo depois vem a queimação do desespero e, sem dúvida, é ali que acontecem os prazeres mais intensos.
ela gostou da brincadeira.
um carinho, um beliscão.
um beijo, um empurrão.
um abraço, um soco.
um cafuné, uma escarrada.
a cada dia ela ia se afastando mais do naturalismo.
criava amizades em meio aos insultos. [era bonito de ver.]
e os amores... ela costumava agarrar os corações pela unha.
o fato é que amizade e amor eram conceitos que não existiam há muito tempo.
ela fazia papel de espelho.
o único no mundo.
até que encontrou uma companhia especial, uma velha que conheceu no metrô.
ela costumava falar que velhos eram mortos que continuaram andando.
mas aquela velha era diferente.
ela se esqueceu do nome porque era realmente difícil de decorar. você sabe, nome de velho.
mas o que a velha lhe escrevia, ela não conseguia esquecer. algumas palavras até lhe faziam mal e, ainda assim, ela não esquecia.
deitava a cabeça no travesseiro e chorava de raiva de ser quem era.
ela descobriu que queria ser aquela velha. escrever genialidades e morrer daqui uma ou duas semanas, no máximo.
era isso o que queria.
numa carta, a velha disse que a menina só tinha dois caminhos.
- você nunca poderá se integrar à babaquice reinante e nem desertar.
a você, só restam o suicídio ou a santidade.
a você, só restam o suicídio ou a santidade.
a menina relutou por um tempo, mas sentiu que não haveria catarse.
não haveria redenção.
[vivi a minha vida inteira acreditando que deus tinha guardado algo de especial pra mim.
mas era mentira.
e das feias.]
por aí vai...
C. L.
F. D.
M. P.
M. B.


